quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Só eu existo

"Boa tarde, Rodrigo," disse uma senhora de bata branca, do outro lado da mesa clara e fria pelas luzes a condizer. "Olá, doutora," respondeu com um sorriso. "O que conta hoje?" disse ela, retribuindo com um sorriso subtilmente luminoso. "Descobri algo," respondeu Rodrigo. "Descobri que só eu existo. Isso mesmo. Só a minha consciência é activa, em todo este espaço com luz." Fez uma pausa, esperando uma reacção da ouvinte. "É um exercício que criei para mim mesmo," continuou. "Ou talvez seja fruto de uma necessidade de entretenimento pessoal, uma necessidade de me enganar, para me sentir acompanhado no meio da solidão eterna que é o tempo infinito. Isto é tão importante, digo, que não pode ser esquecido. Mas amanhã lá vou eu pelas ruas, acreditando que falo com pessoas não emanadas por mim. Por vezes, até desconfio que me olham e me julgam pelos meus pensamentos ou acções. Só eu me julgo e, obviamente, o meu sonho reage." Ela pensou um pouco e disse "Mas se é você que é tudo, quem é que lhe cria os obstáculos no dia-a-dia? Quem é que arbitra a sua vida? Quem é que tem interesse em fazê-lo crescer? Você mesmo?" A resposta não parecia ser fácil. "Eventualmente, antes de começar este exercício, deverei ter contemplado que este método seria o mais eficaz para me fazer acreditar estar acompanhado."

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